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Educação - Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018


Dia Internacional da Pessoa com Deficiência


Dia Internacional da Pessoa com Deficiência

É um momento especial no qual diversas pessoas, em distintos lugares se reúnem para pensar e lutar pela causa e, apesar da importância desses movimentos, é preciso refletir sobre o quanto ainda não avançamos nas questões dos diretos humanos.

Utilizarei aqui o conceito de “burocratização da vida” para trazer à tona esta reflexão.

Voltemos um pouco na história...

Na Antiguidade e, mesmo na Idade Média, eram pouquíssimas as pessoas que tinham direito ou até mesmo oportunidade de aprenderem a ler e a escrever, por isso o papel de destaque para os escribas em vários períodos da nossa História.

Na Idade Média, quem detinha esse conhecimento e praticamente a autoridade sobre tudo que se lia e se escrevia era o clero, por isso a Igreja era procurada na maioria das vezes em que as pessoas precisavam registrar algo importante através de documentos.

De acordo com fontes históricas, todas as vezes que um documento era escrito o escrevente pegava um pano de lã, de cor avermelhada, chamado bureau e com ele forrava a mesa onde ia escrever o documento com sua pena e seu tinteiro.

Assim, com o passar do tempo, o termo bureau passou a significar o ato de escrever documentos ou o lugar onde os documentos são escritos.

Quanto à palavra “cracia”, ela vem do grego, kratos e significa “poder”.

O termo  BUROCRACIA, no entanto, é mais tardio, surge no século XVIII, mas é no século XIX que passa a ter o sentido quase como o que se tem hoje, ou seja, burocracia entendida como o poder que os documentos têm sobre as atividades dos seres humanos.

Agora, voltemos a nossa reflexão...

Quando disse que ainda precisamos avançar muito na questão dos direitos humanos eu estava me referindo justamente a isso: parece que os direitos humanos só são válidos, de fato, quando existem documentos que os afirmem.

Vamos ver como isso acontece. Comecemos pela infância.

Crianças não são burocratas! Quando um colega não consegue correr o suficiente, o outro dá sua mão e corre junto; quando um chora, a brincadeira para; quando um está montando algo interessante com peças, outros pedem para os demais colegas se afastarem para não derrubarem o que está sendo construído; quando um não consegue balançar, sempre tem aquele que empurra a balança; quando um está doentinho na sala de aula e dorme, sempre tem alguém que pede para todos falarem baixinho... mas infelizmente vão perdendo esse olhar para a necessidade do outro, que varia de momento em momento, alternando ajudante e ajudado.

Acontece que, assim que chegam à escola, as crianças são convidadas a elaborar um “contrato pedagógico” que fica escrito e pendurado na parede o ano inteiro, fixando regras e comportamentos.

Pior que isso, quando uma criança faz algo considerado errado nem sempre é levada a refletir. Muitas vezes o adulto apenas diz: “Pode fazer isso? O que está escrito ali?!” – mesmo que as crianças ainda não estejam alfabetizadas. E assim logo aprendem que precisam respeitar os outros e as regras por causa do peso da pena e não pela beleza de ser bom, correto ou justo.

Sei que tratados e declarações, leis criminalizando a violência contra mulher, o racismo e os maus tratos a quaisquer seres humanos ou animais são de suma importância, porém o paradoxo é justamente esse: precisarmos ainda do poder dos documentos para garantirmos o mínimo de dignidade às pessoas.

É preciso ainda chegar o tempo em que, no caso  da Inclusão da Pessoa com Deficiência, as escolas não precisem mostrar o trabalho que fazem na Educação Especial, que as mães não precisem perder noites de sono pensando que seu filho especial vai pra escola, que as empresas não precisem ter cotas para deficientes e que crianças e jovens deficientes  não protagonizem propagandas ou programas de TV para emocionar e comover as pessoas garantindo audiência e lágrimas no sofá.

É preciso chegar o tempo em que a pessoa deficiente seja mais uma, como qualquer um: diferente e singular como são as pessoas.

No meu entender, o avanço verdadeiro só será conquistado quando pudermos abolir esses documentos e respeitarmo-nos uns aos outros só pelo fato de sermos gente. Bastando apenas isso: ser gente para ser digno de respeito!

 

Por Profa Eliana Gamarra

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